À criança perdida nos escombros do adulto

Meu amado irmão,
Meu coração tantas vezes cortado,
E minha alma tantas vezes atravessada pela dor,
Solidariza-se com você.
E eu não sei por que motivo você é tão pequeno, mesquinho e covarde,
E por que sobreviver foi uma necessidade em sua vida,
Que te fez assim: um ser machucado,
Que machuca,
Um ser dilacerado,
Que sangra a carne do outro,
Por medo que a sua seja cortada primeiro.
Eu não sei, meu irmão,
O que tua infância guarda,
O que nem tua consciência sabe…
Mas eu te guardo dentro de mim,
Como um mistério amoroso,
Que eu sou incapaz de entender,
E, por isso, julgar.
Eu sinto muito, de verdade!
Sinto tanto que seja preciso,
Que seja teu único recurso
Machucar o outro,
Porque não te ensinaram a amar,
Porque não foste amado o suficiente,
Para que teus monstros calassem tão fundo,
Que fosse impossível escutá-los.
Diz-me: teus demônios sabem meu nome?
Porque hoje eu te ninarei até o amanhecer,
E contarei histórias inventadas sobre um passado que está morto, onde foste mais que um menino, mais que uma solidão
Na soleira da porta, esperando que te viessem buscar,
E a noite guardasse histórias sobre cavaleiros e princesas de um reino tão, tão distante do prometido,
Que te faria não desejar rezar nunca mais, a sonhar a vida que te aguardava aqui mesmo, entre os plebeus.
Dorme, criança!
Dorme!
E quando acordares novamente, será teu o paraíso,

O paraíso daqueles que não sonham e sabem as verdades da vida.
O paraíso dos humanos demais para serem salvos,
O paraíso dos poetas, vagabundos e loucos de toda sorte,
O único paraíso que nos cabe nessa curta existência.

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Maturidade, cansaço ou apenas flores na beira da estrada

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Tempos atrás, um amigo disse que me sentia mais madura.

Fiquei pensando se maturidade tinha a ver com uma sensação profunda de cansaço. Mas não um cansaço ruim… cansaço bom! Era o que eu sentia, embora não tenha dito isso ao amigo.

Porque não sei o que significa ser maduro, sei que o que sinto é cansaço: cansaço das mesmas situações e relações infrutíferas, cansaço de me tentar fazer entender, e não conseguir… cansaço de tudo aquilo que eu vivenciei e não me levou a canto nenhum.

Acho que chega um momento na vida de todos nós em que dizemos “basta, cansei!”

Sempre me senti como uma catadora de segundos infinitos, desses que tornam a vida mais interessante e bela. Mas, demorei a perceber que esses grãos de tempo nem sempre dependem só de mim, que alguns serão ofertados independente de minha escolha. Demorei a perceber que as pessoas também estão selecionando seus próprios grãos significativos, e que nem sempre nos selecionaremos. E tudo bem!

Cansei de empunhar a espada e ir a luta em todas os combates que vi pela frente. Parei de me culpar por tudo que não deu certo e aceitei feliz o que eu tinha conseguido até aqui, sem me punir ou sofrer em demasia pelos “e ses” que só existiam em minha cabeça. A ânsia por engolir a vida, em todos os seus estímulos, desapareceu.

Não sei se é a isso que se dá o nome de maturidade, experiência de vida… só sei que hoje, prefiro poucos e bons momentos do dia, desfrutados com toda intensidade, a tentar vivenciar todos, e não conseguir estar inteira em nenhum. E isso serve também para relacionamentos. Quantidade não é qualidade.

Os minutos que pude tornar mais belos, eu o fiz, e dos que recebi prontos, tornei-me espectadora, tentando retirar deles o significado e aprendizado que continham, ainda que fossem difíceis de serem vividos.

Aqui e ali, encontro terra fértil de poesia e beleza. Nesses terrenos fecundos de amorosidade, sou bicho manso, infinito no calor da terra fofa, pés descalços e alma nua, sorriso fácil de quem encontrou um bom esconderijo para viver guardado, perto das estrelas, no sagrado coração da vida.

Quando não encontro, calço meus velhos tênis – já acostumados ao formato dos pés -, saco da bolsa os fones de ouvido jorrando paixão antiga, e caminho por aí, devagar, descobrindo coisas novas todos os dias.

Olhos nos olhos do tempo, pergunto a ele quanto ainda terei de sua generosidade com meus passos lentos e incertos. Nunca recebi resposta, mas não deixei de notar a fúria das flores miúdas, rompendo o pesado cimento das estradas por onde andei.

 

Hoje não, baby! Hoje não…

 

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Foto de Christian Hopkins

Que demônio é esse, que faz das minhas profundezas refúgio e sombra?

Que violência é essa, que me prende e arrasta, que me submerge e esmaga, que me afoga com milhões de sussurros, mas não me mata de uma vez?

Que beijo é esse, que suspende minha respiração, suga meu sangue e cala a voz?

Que verme imundo se alastra, e toma meu corpo como se eu fosse uma casca, despejada de mim mesma, vomitada pelos poros e orifícios todos, até cair no chão,  seca e impotente, fora de mim, à espera do hálito morno da noite, da flutuação das sombras azuladas na parede, do peso do corpo a conferir existência ante a febre e agonia?

Que loucura pagã, como todas as fomes e todos os amores, e todas as belezas do mundo, que findam e ficam pelo caminho, onde eu permaneço em vigília, com a mão vacilante a empilhar uma torre de cartas, uma após outra, com o estômago a reclamar o veneno das horas, a coluna a suportar o equilíbrio do caos, curvando-se até o ponto de eu escutar-lhe os trincos, até o pulmão encher-se de ar, e cuspir o berro, a dor, o fogo que morde meus medos e beija meus desejos.

Que força é essa, que se ergue e afronta, que flerta com o delírio e teima, teima, teima… até adormecer e o silêncio virar prece, e o corpo pairar entre a paz e a exaustão, quando o sorriso nos lábios entoa o hino da resistência, próprio de quem tem por ofício o exorcismo de si mesmo:

– Hoje não, baby! Hoje não…

Enquanto a chuva não se vai…

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Prezada T.,

Dezembro despediu-se recentemente das ruas, e eu suponho que os excessos dourados e vermelhos da sua Sampa estejam agora dormindo em prateleiras esquecidas.

Aqui no meu pedaço de mundo, dezembro não se vestiu com tanta extravagância, embora não tenha dispensado o velho amarelo-e-branco, na esperança de dias mais generosos.

Janeiro lava as ruas da minha cidade, e eu confesso certa saudade do dourado, não o das lojas, mas o que faz arder minha terra em grande parte do ano.
É engraçado o que ocorre quando a chuva – ou o frio -, vem nos visitar: tudo vira ausência!

As pessoas recolhem-se em seus cantos, e as ruas viram um deserto úmido de carros e prédios indiferentes.

Já eu sou desejo de ser menina novamente – será que deixei de ser algum dia? -, para tomar banho de chuva na biqueira de casa, chapinhar as poças e depois reclamar do resfriado com um copo de chocolate quente nas mãos.

Enquanto aguardo a chegada dourada do calor, vou organizando a agenda sob o compasso doce dos pingos d’água na janela, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo, enquanto o ano ainda é promessa à espera de meus movimentos para crescer.

Lehitraot,

I.

Der Idiot

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O mesmo escritório de 30 anos atrás. Lembranças acumuladas nos móveis antigos, a velha máquina de escrever que fala mais sobre aquele lugar que as folhas que suas letras já machucaram.

Era inspirador e, ao mesmo tempo, assustador ver-se nua, exposta ao tempo, com todas as rachaduras e tintas que a alma já teve. Era um convite tentador ao eterno “quem sou?”

O som das batidas na máquina pareciam impressas naquele velho escritório que pertenceu ao avô. No armário, um livro de Doitojewski, em luxuosa encadernação e traduzido para o alemão. Der Idiot.

Aquele escritório antigo era seu esconderijo predileto, mas ela nunca havia observado aquele livro ali. Talvez, por não saber alemão, seus olhos inconscientemente desprezaram os grossos volumes que estavam guardados naquele armário. E talvez porque somente anos mais tarde foi ler Dostoévski, conseguiu finalmente decifrar o título do volume escrito em alemão.

Por mais de 40 anos, aquele escritório fôra o mundo de seu avô, e ela agora olhava fascinada para as histórias que existiam ali e que não teve tempo de conhecer. Então ele lia Dostoévski.

E o armário pareceu lhe responder que não só Dostoévski… Tolstoi e Goethe também.

Refletiu um pouco mais sobre o avô. O homem que sentava na mesma cadeira em que hoje ela estava sentada, e permanecia horas em silêncio, lendo, como se não houvesse amanhã. Achou seus livros ridículos, se comparados aos livros lidos pelo avô.

Uma tristeza amarga bateu em seu peito. Jamais tivera a ideia de examinar melhor as coleções que se escondiam naquele armário. Perdera um pedaço do avô que ela não sabia existir.

Sabia que ele gostava de ler, mas agora se questionava: quais folhas compuseram o homem de 1,90 metros e cachimbo pendente do vasto e bem cuidado bigode que parecia sorrir de lado?

Olhou para a estante atrás de si. Outra coleção de clássicos, desta vez traduzida para o português: Miguel de Cervantes, Emille Zolla, Moliére, Eça de Queiroz… e em um compartimento fechado, alguns livros maçônicos.

Não tinha como saber em que momento aqueles livros foram lidos e de que forma, em uma terra tão longínqua como a que vivia, o avô adquiriu os livros em alemão. Também não saberia jamais se o avô gostou deles, se eles amansaram ou extremaram o homem que conheceu. Não tinha nem mesmo como saber quais daqueles livros o avô indicaria como leitura obrigatória ou, do pouco que  o conheceu, se simplesmente não soltaria um sonoro Scheiße* para se referir a alguns exemplares.

Quem foi você, vô?

Na tentativa de descobrir nas páginas amareladas dos exemplares o homem por trás do avô, e a si mesma, resolveu que leria todos os livros que o velho escritório guardara. Com sorte, seus olhos, os do avô e os dela, se encontrariam em um ponto qualquer da leitura, e o ídolo gigante que tanto fascinou a menina, pequena demais em tamanho e entendimento para alcançar os tesouros no armário, contaria a ela um pouco de seus segredos. Talvez, em algumas dessas folhas, suas vidas se fundissem em um encontro marcado em diferentes épocas, e quem sabe ela descobriria de onde vieram os pensamentos soltos nos almoços e passeios, que navios esperou ansiosa as encomendas de livros, que urgências teve para saber do mundo, saber da vida. Talvez entendesse os silêncios contidos atrás da fumaça do cachimbo que não fumava, das tardes salvas nas xícaras de café que adorava, e dos óculos que ainda não pendiam de seu nariz. Talvez percebesse o porquê dos movimentos lentos e decididos do avô, e conseguisse retardar os dela, usando os marcadores de páginas para marcar a própria vida, determinar os passos seguintes… quem sabe, nas linhas grifadas a lápis e nas páginas com orelhas a dar-lhes importância e pausa, entendesse de que páginas se compôs, antes mesmo de ter nascido.

* Scheiße = merda, em alemão.

Felicidade

“Chega mais perto, moço bonito
Chega mais perto meu raio de sol
A minha casa é um escuro deserto
Mas com você ela é cheia de sol.”

– Tom Jobim –

felicidade

Você que não tem formato, cor ou cheiro (e talvez tenha todos os formatos, cores e cheiros), que me convida para dançar em dias que mal penteei o cabelo, que me tira do sério, que me envolve em seu romantismo ingênuo, na sua valsa simples de momentos desconexos.

Você, que não me diz nada sobre você, que me entorta as veias, e embaralha minhas certezas…

Você, que é a essência do refinamento e da delicadeza… você.

Eu que às vezes me apanho velha e rabugenta sobre livros, sou convidada a suspirar em seus canteiros floridos de êxtase.

Você que já me pegou de surpresa em momentos que achei que seriam apenas momentos, mas foram explosões de adrenalina pura.

Sabe, eu não te entendo, te persigo sempre e raramente te encontro.  Porque você vem quando bem entende, nas horas inusitadas, como um sopro, um vento de mudança, daqueles que provocam mini redemoinhos, no meio de um comercial, no meio do banho, da leitura de uma frase qualquer. Você sempre me encontra desprevenida.

E eu que pensei que pudesse te convidar para um chá, mas não. É você quem escolhe quando irá passar por aqui, com seu sol esfuziante, sua alegria corajosa, seu minuto perfeito e dourado, onde tudo é possível, inclusive ser feliz por nada.

Felicidade, o que é você?

Já te li em tantos bruxos das letras e do pensamento e, no entanto, continua sendo fresca e nova como um recém-nascido, o mistério mais delicioso do mundo, de uma receita ainda não escrita, a letra cantada, o amor buscado, a vida perfeita, o diploma alcançado, o emprego dos sonhos, a realização de um projeto. Você existe, e é, quando bem quer, está em quase tudo, mas nada te detém por muito tempo. Você é tão livre!

É da lua o teu calendário de visitas? Porque nunca consigo arrumar a casa quando você vem me visitar. Nem mesmo café tenho pra oferecer porque você chega sem avisar. É de improviso que você existe na minha vida, é de querer-me feliz que você se faz presente. Como uma fada madrinha às avessas, que não realiza nenhum desejo, mas traz a ânsia de querer ter desejos. Você é uma aventura da alma, com suas explicações hormonais e científicas que pouco me interessam ou revelam você.

Eu te vejo no sol, no sorriso bobo, nas canções simples, na combinação deliciosa da minha xícara de chocolate com o frio quase inexistente da minha cidade, quando a chuva faz companhia ao meu sono, quando as horas desfazem-se em canções que te entoam, antes da noite trazer teus requintes rústicos, como o sono de um gato, o barulho dos amantes ou as batidas frenéticas dos dedos no teclado.

Sem saber-te eu te mistifico, e desejo a tua visita em um momento qualquer, teus dedos longos e frágeis sobre o meu rosto num dia inesperado, como aquela velha canção que diz “chega mais perto, moço bonito, chega mais perto meu raio de sol…”

Madrugada

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A noite chega, mas o sono não. No escuro da noite, senta-se na varanda e conversa com a madrugada.

No deserto em que se encontra, saber ouvir a voz da madrugada não é luxo, é necessidade, e ela sabe disso. Precisa se conectar àquela voz, precisa ouvi-la calma e tranquilamente, para entender se o caminho tomado é o correto.

Em vão, por inúmeras noites, tentou acalmar o coração e a mente, mas ambos a traíam, e traziam assuntos que ela não poderia resolver ou que talvez não tivessem solução aparente.

Havia chegado o momento de atravessar o deserto da solidão, e ela precisava ouvir a voz experiente da madrugada.

Olhava as estrelas atentamente, e pedia que elas iluminassem seu caminho, mas não sabia ainda falar com estrelas. Sabia apenas conversar com a madrugada, e a madrugada lhe dava sempre a mesma resposta:

– Dorme, porque teus problemas eu não resolvo. Pede ao sol, que ilumina e dá uma nova oportunidade a cada amanhecer, que te ajude.

– Se soubesse que essa seria sua resposta, não teria ficado acordada.

– Tudo é simples, pequena. Quem complica é você. Mas ao menos sente meu abraço refrescante nas tuas costas e olha que lindo o céu que te ofereço por teres vindo conversar comigo. Se não podes resolver agora teus problemas, não percas a oportunidade de olhar as estrelas. A vida é isso: cuidar para não perder a luz do sol que amanhece sempre uma nova oportunidade, mas não deixar de apreciar as estrelas, pois enxergar já é uma grande alegria, não achas?

Apesar de não receber todas as respostas, a menina insistia, e ficava horas na sacada de seu apartamento, perdida, a contemplar o céu estrelado.

Quem por ali passasse, não avistaria a menina, apenas o reflexo azulado do escuro da noite, porque ela havia também se tornado parte da madrugada. Sabia que, só assim, aprenderia a amanhecer.