Mozart

mozart

Ele sobe no parapeito da janela, olha faceiro o movimento das pessoas e estica-se inteiro para sentir o aroma que sobe das panelas da vizinhança.

Depois, deita-se na minúscula barra de concreto da janela, para o meu desespero.

Evito paquerá-lo. Contenho meu fascínio por ele, pois quero amá-lo ainda por muito tempo. Seria trágico não vê-lo amanhã.

Vez ou outra, ensaio um “psiu” tímido. Ele me olha com seus grandes olhos verdes, e fica ali a me observar, tentando decifrar-me as intenções. Olha-me profundamente. Sinto inveja de sua despreocupação. Seu interesse por mim pode durar 10, 15, 20 minutos, o dia inteiro, não importa. Mozart é despreocupado. Seu eterno é o momento presente. 

Mas só sei amar egoisticamente e, em menos de 10 minutos de namoro, já quero mandar em Mozart.

– Desce, Mozart!

– …

Tento dar um susto nele, enxoto-o, faço tudo para que ele desça do parapeito da janela. Meu medo de perdê-lo, de que despenque do 2º andar, não me permite aproveitar sua presença integralmente. Prefiro amá-lo por 10 minutos todos os dias, que por uma hora e nunca mais. Bobagem minha, pois o destino de Mozart só a sua cabecinha peluda pertence. Mas eu não resisto em tentar mandar nele.

Mas Mozart sabe de mim. Já percebeu que só ameaço. Melhor que isso: que nada poderei fazer contra ele estando no prédio vizinho. Ele me desafia, só porque percebeu que o amo. Empina as orelhas, semicerra os olhos e continua a observar-me atentamente. Pela cara que faz, se falasse estaria me chamando de besta. Desisto de mandar nele, e só o contemplo na janela. Ok, Mozart, você venceu, como sempre.

Eu o paquero, ele me olha, jogo beijos, ele me olha, chamo seu nome, e nada. Mando que desça da janela novamente, e ele abre sua boca enorme de tédio pela minha insistência boba em continuar importunando-o em seu precioso banho de lua. Já li de tudo que se possa imaginar sobre calma e paz interior, e o que me irrita é saber que Mozart não leu – nem lerá -, nenhum livro desse tipo, mas é mestre nesses assuntos.  Sua paciência e sabedoria são inatas, e seu tempo precioso demais para ser desperdiçado com meus medos.

Tento a telepatia dessa vez. Quero que ele desça do parapeito, pois não aguento vê-lo esticado numa fina camada de concreto onde mal cabem suas patinhas.

 Mozart me desafia a vencer meus medos, minha mania de controle.

– Desisto de você, Mozart!

Cerro as cortinas. Fujo da agoniante ideia de vê-lo despencar da janela.

De repente, ouço um miado. Ele sempre faz isso. Espera eu cerrar as cortinas para se interessar pela minha presença. Abro-as novamente, e encontro aqueles olhos enormes me fitando. E nenhum piu mais. Quer dizer, nenhum miado mais. Se falasse, estaria me chamando de besta, pela segunda vez. Provavelmente está.

O fato é que desisti de tentar convencer Mozart a temer a morte e o nomeei meu terapeuta, já que todos os dias ele me ensina a ter paciência e a não desperdiçar meu tempo com medos bobos. Não sei se um dia ele me dará alta, mas já fiz alguns progressos como, por exemplo, puxar uma cadeira e sentar próxima à janela para apreciar a lua com ele. Ante a perspectiva incerta do amanhã, o melhor a fazer é aproveitar o momento presente, e a presença de meu adorável mestre.  Sei que a qualquer momento poderei não mais vê-lo na janela, e isso vai doer. Mas é justamente por isso que, até lá, vamos apreciando a companhia um do outro e admirando a lua, enquanto ele ainda fizer questão da minha presença na janela vizinha. 

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5 pensamentos sobre “Mozart

  1. Eu vou esperar um pouquinho mais para comentar… mas só posso dizer por enquanto: D-E-S-L-U-M-B-R-A-N-T-E!

  2. Cattia Muniz disse:

    Ai pareceu tanto com minha florzinha minha filha que eu amo tanto e não entende meu amor por ela. Acha que eu a sufoco. Adorei o espaço. Bjs!

  3. Mozart vive em cada um de nós. Dentro, fora, ao redor… aonde quer que olhemos, ele está lá.
    Em forma de gato, humano, gente, gesto, ternura…
    Ele existe e, só de existir, o mundo já faz um pouco mais de sentido, já ganha uma cor, um motivo de continuidade.
    Mozart é a nossa carência, a nossa demanda por afeto lindamente representada em singelos toques de presença, de querer o aconchego nos braços do outro.
    Mozart é uma doce representação de você, que nos faz tão bem e acaricia a nossa alma, despertando o que a gente tem de melhor e, às vezes, nem se dá conta….
    Obrigada por me apresentar Mozart. Ele nunca mais sairá da minha cabeça, muito menos do meu coração.
    Beijos admirados e orgulhosos sempre!

  4. Você escreve e eu te leio em voz alta.
    Escrita coerente, emocionante, funda e deliciosa.
    Te amo mais a cada letra.
    Obrigada por escrever.

  5. É assim mesmo, são donos de nossa atenção, justamente por serem totalmente donos de si. Isso afasta alguns também, pelo menos, os que não possuem coragem para ser.

    Texto delicioso! 🙂

    Beijo e uma linda vida!

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