Madrugada

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A noite chega, mas o sono não. No escuro da noite, senta-se na varanda e conversa com a madrugada.

No deserto em que se encontra, saber ouvir a voz da madrugada não é luxo, é necessidade, e ela sabe disso. Precisa se conectar àquela voz, precisa ouvi-la calma e tranquilamente, para entender se o caminho tomado é o correto.

Em vão, por inúmeras noites, tentou acalmar o coração e a mente, mas ambos a traíam, e traziam assuntos que ela não poderia resolver ou que talvez não tivessem solução aparente.

Havia chegado o momento de atravessar o deserto da solidão, e ela precisava ouvir a voz experiente da madrugada.

Olhava as estrelas atentamente, e pedia que elas iluminassem seu caminho, mas não sabia ainda falar com estrelas. Sabia apenas conversar com a madrugada, e a madrugada lhe dava sempre a mesma resposta:

– Dorme, porque teus problemas eu não resolvo. Pede ao sol, que ilumina e dá uma nova oportunidade a cada amanhecer, que te ajude.

– Se soubesse que essa seria sua resposta, não teria ficado acordada.

– Tudo é simples, pequena. Quem complica é você. Mas ao menos sente meu abraço refrescante nas tuas costas e olha que lindo o céu que te ofereço por teres vindo conversar comigo. Se não podes resolver agora teus problemas, não percas a oportunidade de olhar as estrelas. A vida é isso: cuidar para não perder a luz do sol que amanhece sempre uma nova oportunidade, mas não deixar de apreciar as estrelas, pois enxergar já é uma grande alegria, não achas?

Apesar de não receber todas as respostas, a menina insistia, e ficava horas na sacada de seu apartamento, perdida, a contemplar o céu estrelado.

Quem por ali passasse, não avistaria a menina, apenas o reflexo azulado do escuro da noite, porque ela havia também se tornado parte da madrugada. Sabia que, só assim, aprenderia a amanhecer.

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6 pensamentos sobre “Madrugada

  1. Apesar do mundo usar várias formas de nos enganar, a simplicidade sempre nos leva mais longe do que podemos imaginar.

    Beijo e linda vida, simplesmente feliz!

  2. Bem, acho que nem preciso dizer o quanto amei esse texto, desde o primeiro instante em que você me mostrou, não é?

    Foi como se eu pudesse me ver ali, a cada linha escrita, em todas as palavras, num diálogo com o meu próprio íntimo.

    São raras essas oportunidades que temos de nos enxergar realmente nas palavras do outro. Por vezes, são só espelho. Mas, hoje, você realmente falou por mim.

    Obrigada mesmo por isso e por TUDO! Por favor, não pare nunca de dialogar com as estrelas… Elas sabem aonde nos levar!

    Um beijo carinhoso “da fã”!

  3. Inge, espetacular a ideia desse diálogo que só uma cronista de gabarito pode criar e prender nossa atenção de leitores.
    Parabéns!
    Bjs,
    Manoel – Blog do Óbvio

  4. rikaferreira disse:

    Quem não já passou por isso? Muito bom. Parabéns.

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