Felicidade

“Chega mais perto, moço bonito
Chega mais perto meu raio de sol
A minha casa é um escuro deserto
Mas com você ela é cheia de sol.”

– Tom Jobim –

felicidade

Você que não tem formato, cor ou cheiro (e talvez tenha todos os formatos, cores e cheiros), que me convida para dançar em dias que mal penteei o cabelo, que me tira do sério, que me envolve em seu romantismo ingênuo, na sua valsa simples de momentos desconexos.

Você, que não me diz nada sobre você, que me entorta as veias, e embaralha minhas certezas…

Você, que é a essência do refinamento e da delicadeza… você.

Eu que às vezes me apanho velha e rabugenta sobre livros, sou convidada a suspirar em seus canteiros floridos de êxtase.

Você que já me pegou de surpresa em momentos que achei que seriam apenas momentos, mas foram explosões de adrenalina pura.

Sabe, eu não te entendo, te persigo sempre e raramente te encontro.  Porque você vem quando bem entende, nas horas inusitadas, como um sopro, um vento de mudança, daqueles que provocam mini redemoinhos, no meio de um comercial, no meio do banho, da leitura de uma frase qualquer. Você sempre me encontra desprevenida.

E eu que pensei que pudesse te convidar para um chá, mas não. É você quem escolhe quando irá passar por aqui, com seu sol esfuziante, sua alegria corajosa, seu minuto perfeito e dourado, onde tudo é possível, inclusive ser feliz por nada.

Felicidade, o que é você?

Já te li em tantos bruxos das letras e do pensamento e, no entanto, continua sendo fresca e nova como um recém-nascido, o mistério mais delicioso do mundo, de uma receita ainda não escrita, a letra cantada, o amor buscado, a vida perfeita, o diploma alcançado, o emprego dos sonhos, a realização de um projeto. Você existe, e é, quando bem quer, está em quase tudo, mas nada te detém por muito tempo. Você é tão livre!

É da lua o teu calendário de visitas? Porque nunca consigo arrumar a casa quando você vem me visitar. Nem mesmo café tenho pra oferecer porque você chega sem avisar. É de improviso que você existe na minha vida, é de querer-me feliz que você se faz presente. Como uma fada madrinha às avessas, que não realiza nenhum desejo, mas traz a ânsia de querer ter desejos. Você é uma aventura da alma, com suas explicações hormonais e científicas que pouco me interessam ou revelam você.

Eu te vejo no sol, no sorriso bobo, nas canções simples, na combinação deliciosa da minha xícara de chocolate com o frio quase inexistente da minha cidade, quando a chuva faz companhia ao meu sono, quando as horas desfazem-se em canções que te entoam, antes da noite trazer teus requintes rústicos, como o sono de um gato, o barulho dos amantes ou as batidas frenéticas dos dedos no teclado.

Sem saber-te eu te mistifico, e desejo a tua visita em um momento qualquer, teus dedos longos e frágeis sobre o meu rosto num dia inesperado, como aquela velha canção que diz “chega mais perto, moço bonito, chega mais perto meu raio de sol…”

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10 pensamentos sobre “Felicidade

  1. Quando se deixa estar, sem medo, mais comparece. Passando a estar ali, em cada canto e fresta.

    Beijo e linda vida, de festa!

  2. Inge, que coisa boa de se ler. Carregado se sensibilidade.
    Muito bom!
    Manoel

  3. Minha linda Ing,

    Após ler o seu texto, posso afirmar sem sombra de dúvidas que nunca antes vi uma descrição tão linda e verdadeira sobre felicidade.

    Não há mesmo como prevê-la, como defini-la nem entendê-la por completo, e talvez seja essa a graça de tudo!

    O inesperado nos surpreende e traz o colorido à vida, fazendo-nos aprender que o mais importante é nunca desistir de encontrar alegria nas pequenas e grandes coisas!

    Amei, amei, amei… inexplicavelmente lindo!

    Um beijo carinhoso! Obrigada por me traduzir tão bem sempre!

    • Inge Lobato disse:

      Eu é que agradeço, querida Tatiana, pelo olhar tão generoso. É uma alegria saber que você gostou do texto. Não tenho palavras para agradecer pela sua paciência e atenção com as minhas linhas, antes mesmo de elas virem para o CO. Um beijo enorme e obrigada por tudo, sempre!

  4. Lunna Guedes disse:

    Sei lá minha cara, fico pensando aqui comigo no que vem a ser essa tal felicidade? Aliás, coisa que eu sempre penso e me apetece dizer que felicidade é verso de música, poesia – e ingrediente para missivas. rs Mas no dia a dia é só essa ilusão inventada para nos fazer caminhar em direção a alguma coisa. kkkkkkkkkkk

    bacio

    • Inge Lobato disse:

      Fato, querida Lunna! Não dá pra saber muito o que é, impossível compreender os mistérios porque ela não fica nem mesmo naquilo que um dia já a trouxe. É amar a visita repentina dela e tentar guardar na retina da memória sua breve passagem, embora, como você frisou, no dia-a-dia exista mais a ilusão que propriamente felicidade, até para nos fazer sair do lugar, por-nos em movimento. Taí, talvez, felicidade seja estar em movimento. Será? Não sei, rsrsr… Um beijo enorme e obrigada pela visita!! Beijo grande!

  5. rikaferreira disse:

    Só da canção e da foto já houve um convite para a leitura, que legal teu blog! Tudo, está muito bonito.

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