Minhas linhas

passarinhos

Minhas linhas são livres feito passarinhos: vêm quando querem, e me abandonam sem dizer adeus… ou se voltam.

Não raro, levanto-me na madrugada para prendê-las no papel, antes que fujam ao menor sinal de descaso.

Sob a luz dourada do abajur que ilumina a folha, vou me derramando lentamente, com um ritual sagrado de silêncio e respeito pelos versos que pousam em minha caneta, como se um movimento brusco meu pudesse afugentá-los por um longo inverno.

Sempre a postos na cabeceira da cama, um pequeno caderno de anotações vai ganhando vida, cores, deixando imprimir amorosamente em suas pautas os delicados vôos noturnos que me visitaram.

Se outras virão, não sei. Apenas gosto de acreditar que irão voltar em algum momento, que temos um acordo firmado, um encontro sem expectativas em que elas, as linhas, se comprometem a não desistir de mim, e eu me comprometo a lhes dar vida, apesar de saber que é justamente o inverso que ocorre.

Oração dos Loucos

 loucos1

Antes que o sol se apague,
Que o dia termine,
Que a noite me esfrie,
E, só por hoje,
Dançarei com o vento.

Antes que os olhos fechem,
Que a doença leve minhas esperanças,
Que o medo se torne real,
E, só por hoje,
Sorrirei como os bobos.

Porque sei que essa aventura é passageira,
Que o amanhã não me pertence,
E que a felicidade está em perceber
Que, em segundos, tudo pode mudar.

Por isso,
Antes que a noite se faça eterna
No peito, na vida, nas horas infinitas,
E, só por hoje,
Eu serei enorme, estúpida,
Imensamente feliz.

Amém!

Mozart

mozart

Ele sobe no parapeito da janela, olha faceiro o movimento das pessoas e estica-se inteiro para sentir o aroma que sobe das panelas da vizinhança.

Depois, deita-se na minúscula barra de concreto da janela, para o meu desespero.

Evito paquerá-lo. Contenho meu fascínio por ele, pois quero amá-lo ainda por muito tempo. Seria trágico não vê-lo amanhã.

Vez ou outra, ensaio um “psiu” tímido. Ele me olha com seus grandes olhos verdes, e fica ali a me observar, tentando decifrar-me as intenções. Olha-me profundamente. Sinto inveja de sua despreocupação. Seu interesse por mim pode durar 10, 15, 20 minutos, o dia inteiro, não importa. Mozart é despreocupado. Seu eterno é o momento presente. 

Mas só sei amar egoisticamente e, em menos de 10 minutos de namoro, já quero mandar em Mozart.

– Desce, Mozart!

– …

Tento dar um susto nele, enxoto-o, faço tudo para que ele desça do parapeito da janela. Meu medo de perdê-lo, de que despenque do 2º andar, não me permite aproveitar sua presença integralmente. Prefiro amá-lo por 10 minutos todos os dias, que por uma hora e nunca mais. Bobagem minha, pois o destino de Mozart só a sua cabecinha peluda pertence. Mas eu não resisto em tentar mandar nele.

Mas Mozart sabe de mim. Já percebeu que só ameaço. Melhor que isso: que nada poderei fazer contra ele estando no prédio vizinho. Ele me desafia, só porque percebeu que o amo. Empina as orelhas, semicerra os olhos e continua a observar-me atentamente. Pela cara que faz, se falasse estaria me chamando de besta. Desisto de mandar nele, e só o contemplo na janela. Ok, Mozart, você venceu, como sempre.

Eu o paquero, ele me olha, jogo beijos, ele me olha, chamo seu nome, e nada. Mando que desça da janela novamente, e ele abre sua boca enorme de tédio pela minha insistência boba em continuar importunando-o em seu precioso banho de lua. Já li de tudo que se possa imaginar sobre calma e paz interior, e o que me irrita é saber que Mozart não leu – nem lerá -, nenhum livro desse tipo, mas é mestre nesses assuntos.  Sua paciência e sabedoria são inatas, e seu tempo precioso demais para ser desperdiçado com meus medos.

Tento a telepatia dessa vez. Quero que ele desça do parapeito, pois não aguento vê-lo esticado numa fina camada de concreto onde mal cabem suas patinhas.

 Mozart me desafia a vencer meus medos, minha mania de controle.

– Desisto de você, Mozart!

Cerro as cortinas. Fujo da agoniante ideia de vê-lo despencar da janela.

De repente, ouço um miado. Ele sempre faz isso. Espera eu cerrar as cortinas para se interessar pela minha presença. Abro-as novamente, e encontro aqueles olhos enormes me fitando. E nenhum piu mais. Quer dizer, nenhum miado mais. Se falasse, estaria me chamando de besta, pela segunda vez. Provavelmente está.

O fato é que desisti de tentar convencer Mozart a temer a morte e o nomeei meu terapeuta, já que todos os dias ele me ensina a ter paciência e a não desperdiçar meu tempo com medos bobos. Não sei se um dia ele me dará alta, mas já fiz alguns progressos como, por exemplo, puxar uma cadeira e sentar próxima à janela para apreciar a lua com ele. Ante a perspectiva incerta do amanhã, o melhor a fazer é aproveitar o momento presente, e a presença de meu adorável mestre.  Sei que a qualquer momento poderei não mais vê-lo na janela, e isso vai doer. Mas é justamente por isso que, até lá, vamos apreciando a companhia um do outro e admirando a lua, enquanto ele ainda fizer questão da minha presença na janela vizinha. 

No silêncio das horas mortas

silencio

É no silêncio das horas mortas que encontro Deus, como em uma manhã de domingo triste, em que as certezas da vida escapam, e sobra apenas a realidade nua do momento. Ele surge como uma luz, um pensamento fugaz, e depois me escapa.

É nessas horas que mais me encontro, questiono a existência e, no minuto seguinte, me perco. Volto a me concentrar, mas não depende de mim encontrá-Lo. Na verdade, eu é que dependo dessa força que surge nessas horas vazias, de bruta realidade.

Se alguém me perguntasse onde está Deus, eu diria que está no banal, no minuto que antecede o sono, quando a casca do mundo abandona o corpo. Eu diria que Deus está no silêncio das horas mortas, quando fazer sentido não importa mais.

Redemoinho

redemoinho

Eu arranho cordas,
Eu leio poemas,
Eu risco versos,
Eu decifro códigos.
Eu canso,
E não adormeço.
Vejo pessoas, algumas me vêem,
Outras não.
Olho o tempo, e o tempo me olha de volta.
De repente são 18:00 horas,
Olho o tempo, e ele não volta.
São cores, ofertas, promessas.
São códigos de conduta,
E eu não me encaixo.
Eu, que vivo à beira de tudo,
Eu, que me arrisco a viver fora do sistema,
Eu, que busco a alegria dos sentidos,
Que não vejo poesia em carros novos,
Que não entendo a linguagem do sucesso,
Eu, desumana, em meio ao caos da cidade
E dos meus pensamentos desordenados.
EU, que busco salvação nas telas,
Da tv, da internet, de Salvador Dali…
Eu, que não entendo muito,
Sei apenas que olho o tempo,
E ele me olha de volta.