Feito Vento

vento

Talvez eu seja feita de vento, uma brisa leve soprando pra algum lugar que eu não sei exatamente onde fica, mas saberei. Talvez.

Porque não me arrisco a tentar definir mais nada, e nem a carregar o peso de tantas certezas, até porque a vida sempre ri de todas elas.

A única certeza que tenho é que sou pequena demais para ter tantas certezas assim. Quase tudo parece duvidar das minhas respostas prontas, e nisso reside minha alegria: me conformar em perceber que o mais sábio é entender que talvez seja, talvez não, talvez mude, talvez não.

Por um tempo, a delicadeza da alma feita só de brisa me desafiou o espírito. Em um momento da vida em que minha alma foi picada em pedaços e colada de forma meio torta, achei que deveria ser dura feito pedra.

Enquanto acreditei nisso, tive certezas inquestionáveis, e as dúvidas foram prontamente rechaçadas ou respondidas. Tinha um caminho definido e uma meta a ser alcançada. Eu era meu próprio quartel. Pena que nele jamais deixaria de ser um soldado raso, sem direito a questionar as próprias certezas impostas. Pena, também, ter esquecido que pedras não foram feitas pra sair do lugar.

Por um descuido da armadura vigilante em que me transformei, uma das minhas certezas inquestionáveis se desfez no ar, explodiu linda e colorida feito confete no meu rosto, e surgiram dúvidas alegres e zombeteiras que espalharam o caos no meu quartel e desfizeram toda hierarquia e seriedade que constituí como alicerces da minha alma de pedra.

Toda essa desordem momentânea me deixou atônita, manca de uma certeza só: sou pequena demais para ter tantas certezas assim. Mentira, tenho outra: tenho que respirar e comer, senão morro. O resto… bem, o resto, até onde eu sei e acredito, pode mudar.

Por isso, desertei do meu quartel, piquei mais uma vez a alma inteira e estou, no momento, remendando-a novamente. Vai ficar torta, eu sei, mas perfeccionismo nunca me ajudou muito, e está mais pra defeito que qualidade.

E é por isso que acredito ser feita de vento. Ou talvez de pólen, poeira de estrelas, onda do mar, asa de borboleta, tanto faz. Que seja do que for, que tenha brechinhas e seja mal colada mesmo, para que o sol jamais deixe de iluminar os cantos mais escuros, e a cola que une seus pedaços não seque tanto a ponto de endurecer os sentimentos e o sorriso de gratidão a absolutamente tudo que me retirou o excesso de certezas, o fardo pesado de verdades inúteis e mutáveis.

E a gente segue assim, mal colada e sorridente entre dúvidas zombeteiras, rumo a algum lugar que não se sabe exatamente onde fica. Feito vento.

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Mendigos

Mendiga (Gilberto Russa)

Mendiga (Gilberto Russa)

Moço, um pouco de pão, circo, cachaça e um falso amor, por favor, que eu tenho medo de morrer em agonia. Um pouco de ilusão triste e repetitiva, e uma rua estreita bem suja, onde eu possa encontrar quem afogue minhas lágrimas por receber as esmolas que peço.

Um pouco de alegria frouxa de bebida, de riso e ironia, por saber que ando perdida. Um pouco de dor pra me fazer companhia enquanto tergiverso pela enésima vez sobre as feridas que amo.

Se não for pedir muito, fica comigo só hoje, porque eu não tenho medo do escuro, eu não tenho medo da vida, eu tenho medo é de mim, eu tenho medo é da minha companhia, é o espelho que me mortifica.

E, se não for pedir muito, quando me abandonar em uma rua qualquer, deixa pelo menos o pão e a cachaça, que é pra eu ter forças de adormecer fuga nas ruas de qualquer outro amor.

Minhas linhas

passarinhos

Minhas linhas são livres feito passarinhos: vêm quando querem, e me abandonam sem dizer adeus… ou se voltam.

Não raro, levanto-me na madrugada para prendê-las no papel, antes que fujam ao menor sinal de descaso.

Sob a luz dourada do abajur que ilumina a folha, vou me derramando lentamente, com um ritual sagrado de silêncio e respeito pelos versos que pousam em minha caneta, como se um movimento brusco meu pudesse afugentá-los por um longo inverno.

Sempre a postos na cabeceira da cama, um pequeno caderno de anotações vai ganhando vida, cores, deixando imprimir amorosamente em suas pautas os delicados vôos noturnos que me visitaram.

Se outras virão, não sei. Apenas gosto de acreditar que irão voltar em algum momento, que temos um acordo firmado, um encontro sem expectativas em que elas, as linhas, se comprometem a não desistir de mim, e eu me comprometo a lhes dar vida, apesar de saber que é justamente o inverso que ocorre.

Oração dos Loucos

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Antes que o sol se apague,
Que o dia termine,
Que a noite me esfrie,
E, só por hoje,
Dançarei com o vento.

Antes que os olhos fechem,
Que a doença leve minhas esperanças,
Que o medo se torne real,
E, só por hoje,
Sorrirei como os bobos.

Porque sei que essa aventura é passageira,
Que o amanhã não me pertence,
E que a felicidade está em perceber
Que, em segundos, tudo pode mudar.

Por isso,
Antes que a noite se faça eterna
No peito, na vida, nas horas infinitas,
E, só por hoje,
Eu serei enorme, estúpida,
Imensamente feliz.

Amém!

Mozart

mozart

Ele sobe no parapeito da janela, olha faceiro o movimento das pessoas e estica-se inteiro para sentir o aroma que sobe das panelas da vizinhança.

Depois, deita-se na minúscula barra de concreto da janela, para o meu desespero.

Evito paquerá-lo. Contenho meu fascínio por ele, pois quero amá-lo ainda por muito tempo. Seria trágico não vê-lo amanhã.

Vez ou outra, ensaio um “psiu” tímido. Ele me olha com seus grandes olhos verdes, e fica ali a me observar, tentando decifrar-me as intenções. Olha-me profundamente. Sinto inveja de sua despreocupação. Seu interesse por mim pode durar 10, 15, 20 minutos, o dia inteiro, não importa. Mozart é despreocupado. Seu eterno é o momento presente. 

Mas só sei amar egoisticamente e, em menos de 10 minutos de namoro, já quero mandar em Mozart.

– Desce, Mozart!

– …

Tento dar um susto nele, enxoto-o, faço tudo para que ele desça do parapeito da janela. Meu medo de perdê-lo, de que despenque do 2º andar, não me permite aproveitar sua presença integralmente. Prefiro amá-lo por 10 minutos todos os dias, que por uma hora e nunca mais. Bobagem minha, pois o destino de Mozart só a sua cabecinha peluda pertence. Mas eu não resisto em tentar mandar nele.

Mas Mozart sabe de mim. Já percebeu que só ameaço. Melhor que isso: que nada poderei fazer contra ele estando no prédio vizinho. Ele me desafia, só porque percebeu que o amo. Empina as orelhas, semicerra os olhos e continua a observar-me atentamente. Pela cara que faz, se falasse estaria me chamando de besta. Desisto de mandar nele, e só o contemplo na janela. Ok, Mozart, você venceu, como sempre.

Eu o paquero, ele me olha, jogo beijos, ele me olha, chamo seu nome, e nada. Mando que desça da janela novamente, e ele abre sua boca enorme de tédio pela minha insistência boba em continuar importunando-o em seu precioso banho de lua. Já li de tudo que se possa imaginar sobre calma e paz interior, e o que me irrita é saber que Mozart não leu – nem lerá -, nenhum livro desse tipo, mas é mestre nesses assuntos.  Sua paciência e sabedoria são inatas, e seu tempo precioso demais para ser desperdiçado com meus medos.

Tento a telepatia dessa vez. Quero que ele desça do parapeito, pois não aguento vê-lo esticado numa fina camada de concreto onde mal cabem suas patinhas.

 Mozart me desafia a vencer meus medos, minha mania de controle.

– Desisto de você, Mozart!

Cerro as cortinas. Fujo da agoniante ideia de vê-lo despencar da janela.

De repente, ouço um miado. Ele sempre faz isso. Espera eu cerrar as cortinas para se interessar pela minha presença. Abro-as novamente, e encontro aqueles olhos enormes me fitando. E nenhum piu mais. Quer dizer, nenhum miado mais. Se falasse, estaria me chamando de besta, pela segunda vez. Provavelmente está.

O fato é que desisti de tentar convencer Mozart a temer a morte e o nomeei meu terapeuta, já que todos os dias ele me ensina a ter paciência e a não desperdiçar meu tempo com medos bobos. Não sei se um dia ele me dará alta, mas já fiz alguns progressos como, por exemplo, puxar uma cadeira e sentar próxima à janela para apreciar a lua com ele. Ante a perspectiva incerta do amanhã, o melhor a fazer é aproveitar o momento presente, e a presença de meu adorável mestre.  Sei que a qualquer momento poderei não mais vê-lo na janela, e isso vai doer. Mas é justamente por isso que, até lá, vamos apreciando a companhia um do outro e admirando a lua, enquanto ele ainda fizer questão da minha presença na janela vizinha. 

No silêncio das horas mortas

silencio

É no silêncio das horas mortas que encontro Deus, como em uma manhã de domingo triste, em que as certezas da vida escapam, e sobra apenas a realidade nua do momento. Ele surge como uma luz, um pensamento fugaz, e depois me escapa.

É nessas horas que mais me encontro, questiono a existência e, no minuto seguinte, me perco. Volto a me concentrar, mas não depende de mim encontrá-Lo. Na verdade, eu é que dependo dessa força que surge nessas horas vazias, de bruta realidade.

Se alguém me perguntasse onde está Deus, eu diria que está no banal, no minuto que antecede o sono, quando a casca do mundo abandona o corpo. Eu diria que Deus está no silêncio das horas mortas, quando fazer sentido não importa mais.

Redemoinho

redemoinho

Eu arranho cordas,
Eu leio poemas,
Eu risco versos,
Eu decifro códigos.
Eu canso,
E não adormeço.
Vejo pessoas, algumas me vêem,
Outras não.
Olho o tempo, e o tempo me olha de volta.
De repente são 18:00 horas,
Olho o tempo, e ele não volta.
São cores, ofertas, promessas.
São códigos de conduta,
E eu não me encaixo.
Eu, que vivo à beira de tudo,
Eu, que me arrisco a viver fora do sistema,
Eu, que busco a alegria dos sentidos,
Que não vejo poesia em carros novos,
Que não entendo a linguagem do sucesso,
Eu, desumana, em meio ao caos da cidade
E dos meus pensamentos desordenados.
EU, que busco salvação nas telas,
Da tv, da internet, de Salvador Dali…
Eu, que não entendo muito,
Sei apenas que olho o tempo,
E ele me olha de volta.